terça-feira, 13 de junho de 2017

True story

(foto minha  muito antiga)

Vem isto a propósito de um preçário na montra da Parfois da Av. da Igreja que publiquei há pouco no Facebook e que gerou toda uma risota.

Há dias, à saída da aula de Espanhol (pus-me finalmente a aperfeiçoar os excelentes conhecimentos da língua que a leitura semanal de 40 anos de ¡Hola! me proporcionou), reparei numas sandálias na montra da sapataria que fica umas quantas portas a seguir. Eram mesmo o meu género, que tenho uma certa panca por sandálias de tiras, e de salto médio, o que cada vez mais me convém, que já não tenho o fôlego de outros tempos para aguentar de cara alegre saltos altíssimos um dia inteiro. Na montra havia em bege e em preto, tenho quase iguais nas mesmas cores, em azul-escuro é que me faziam mesmo falta. Entrei para perguntar se tinham o mesmo modelo no raio dessa cor que agora parece tão difícil de encontrar.

Não tinham. Mas a empregada, muito prestável, dispôs-se a telefonar de imediato para duas outras lojas a averiguar. Era rapariga à volta da minha idade, de muito bom ar, aparência cuidada, maquilhagem discreta e bem feita. E eu aguentei de cara impassível (nem pestanejei, juro!) a conversa que ouvi por duas vezes, para duas lojas diferentes: "Tenho aqui a referência XYZ. Sim, é a sendália de salto médio, preciso de um azul-escuro 38."

Um autêntico dois-em-um, meus amigos! Bem sabem quanto acarinho um sendálias, mas quando o transformam em singular, a sendália, a volúpia é completa. São pessoas destas que dizem com toda a convicção que "esta calça tem muito bom corte", "este sapato dá muito bom andar", "este brinco alonga-lhe o rosto". E depois, claro, temos o patamar seguinte, lá por terras do Brasil, em que, vá lá Deus Nosso Senhor saber porquê, toda a gente parece dizer "o óculos", referindo-se a um par de óculos. 

A título de brinde, fiquem com a fotografia da Parfois da Avenida da Igreja que há pouco pus no Facebook, e que foi todo um êxtase. Encharpe já é todo um clássico da asneira.


quinta-feira, 23 de março de 2017

De la Musique (pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos)



Bem sei que o tema "música no blogue" não é pacífico. Sei que muito boa gente abomina. Mas este blogue (a sua autora) sempre precisou de música como do ar que respira, e boa parte da sua identidade, se não a sua identidade inteira, poderia contar-se em música. Se entre aqueles que detestam chegar aqui e levar logo com música em cima, e entre eles contam-se algumas pessoas que até me são muito queridas, a verdade é que também sei que outros há que se detêm mais um pouco apenas para saborear a minha escolha do dia, tal como sei de ouvidos teimosos que algumas vezes se renderam ao sortilégio de uma melodia. Este blogue sou eu, love me or leave me. Nunca houve aqui pretensões de estrelato blogosférico, ambições de projecção ou voos maiores. Poucos mas bons, esses são os meus leitores. Os leitores, e tantos (tantos!) desconhecidos, que se revelaram vai agora fazer quatro anos em catadupas de mensagens que imensamente me comoveram nunca saberia dizer-vos quanto, quando decidi contar que tinha acabado de me ser diagnosticado o filho de um grande cabaz de nêsperas de um cancro.

Tudo isto é matéria para outro dia, agora queria apenas dizer-vos que, como a MDP (Mula do Pior) que sou, ando há dois dias para escrever aqui. Nada de importante ou que faça falta ao mundo, é certo, mas falta-lhe a música. Melhor dizendo, falta-lhe A música que eu quero. A de George Szell a dirigir a Orquestra de Cleveland naquela que sempre foi a minha sinfonia favorita de Beethoven, a Sétima. Acontece que não me contento com outra gravação, a sua continua a ser a minha favorita. Tentei outras, e rejeitei-as. A Helena que me perdoe, mas a do nosso querido Sir Simon Rattle, pelo menos no andamento que se quer, que é o segundo, é estridente nos metais, e isso rouba-lhe aquela dimensão de sonho e melancolia que o andamento tem.

Acreditem ou não (sei que acreditam), apenas por isso não voltei a escrever, 

segunda-feira, 20 de março de 2017

I ❤ Bette Davis


A saborear o terceiro episódio de Feud, sobre a lendária guerra sem quartel que Bette Davis e Joan Crawford mantiveram durante toda a vida. O cenário é a rodagem de Whatever Happened to Baby Jane?, de Robert Aldrich, seguramente um dos dez primeiros DVD que comprei.

Com duas actrizes como Susan Sarandon e Jessica Lange só podia sair coisa muito interessante, assim o texto fosse bom. É. O texto é muito bom. Mas, mesmo gostando muito de ambas, quer-me parecer que Susan Sarandon está ainda melhor como Bette do que Jessica Lange como Joan. E acontece que eu toda a vida adorei a grande Miss Davis.

Confesso que o meu primeiro impulso foi pôr isto no Facebook, sinal inequívoco de que me desabituei do blogue. Mas depois pensei que não senhor, o lugar certo é aqui, na minha casa mais antiga, e que me é muito querida. E que é convosco que quero partilhar em primeira mão esta pérola de diálogo (e ainda me faltam 35 minutos do episódio).

Bette Davis (Susan Sarandon, já sabem, e está realmente de cortar a respiração) e o realizador, Robert Aldrich — Alfred Molina) discutem um actor possível para integrar o filme.

Bette Davis: You said he was from Broadway. He's not. I checked. All his stage work (aqui baixa a voz e sopra, indignada) is from San Diego!

Robert Aldrich: Yeah, the Old Globe! He's a distinguished Shakesperarian actor!

Bette Davis (ar exasperado): Oh, I'm sure his Falstaff is the talk of Tijuana!

domingo, 19 de março de 2017

Famosa blogger portuguesa é o próximo Jean Valjean em Londres


Seguindo a irritante onda vigente de títulos parvos que tentam atrair leitores, e que só hoje fiquei a saber que se chama clickbait — sempre a aprender —, palavra de honra que foi o título que me veio imediatamente à cabeça há quatro ou cinco dias, quando vi o casaco que blogger muito conhecida mostrava. Ou isso ou comprou o casaco à produção de Les Misérables.

Para quem não saiba, Jean Valjean é o protagonista do meu tão amado Les Misérables, recordista absoluto entre os musicais mais tempo em palco, já vai em 31 anos em Londres. Em todas as produções mundiais, e têm sido incontáveis, o guarda-roupa é sempre igual, seja em Sydney ou em Copenhaga.

E que não faria eu pelos meus escassos estimados leitores? Só por vós e para vós, dei-me ao trabalho de alojar no YouTube este esplêndido documentário que conta a história de como tudo começou, naquele longínquo 8 de Outubro de 1985, documentário que há mais de vinte anos me foi oferecido por um querido amigo que já não está entre nós.  De cada vez que John Caird intervém, assaltam-me os remorsos por não lhe ter saltado ao pescoço em agradecimento, daquela vez que o vi a jantar no The Ivy, por tradição o restaurante a que, quem é do meio, vai a seguir ao teatro. Convém marcar com bastante antecedência, ou ficar num hotel com um concierge daqueles mesmo bons.

A ver se se animam e, caso nunca tenham visto, não perdem Les Misérables numa próxima ida a Londres. E depois venham cá contar, sim?


Bamda sonora (ali em cima à direita): One Day More, o glorioso final do I Acto, quando já estou com os olhos inchados de tanto chorar.

Volver

«Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.»


Alberto Caeiro

Porquê voltar agora, ou em qualquer outro momento dos últimos dois anos, aliás, a uma blogosfera tão diferente daquilo que já foi?

Porque me apetece, pronto. Porque em muitos momentos dou comigo a ter saudades do ritual nem sempre diário, mas quase, de deitar dedos ao teclado para debitar coisas que apenas a um muito moderado número de pessoas interessariam, com muitos disparates pelo meio, bastante galinhice, alguma mordacidade de vez em quando e troça amigável com alguma frequência. E porque também dou comigo a ter saudades da interacção que um blogue gera.

É certo que conservo preciosamente amizades feitas na blogosfera e que mantenho um contacto diário e muito activo com meia dúzia de pessoas das quais, actualmente, só duas mantêm o blogue. As restantes, e por razões variadas, têm presentemente os blogues parados. E sinto falta deles.

Ontem, a jantar com um histórico da blogosfera (blogue permanentemente actualizado desde 2003, os meus quase onze anos empalidecem perante o fulgor dos seus extraordinários 14), milhares de páginas de muito boa escrita, ele foi definitivo: o Facebook matou os blogues. Ri e cantarolei o refrão da música dos Buggles com arrancou a MTV, Video Killed The Radio Star. Mas só concordo parcialmente. É certo que o Facebook deu uma valente machadada na blogosfera, e que depois o Instagram veio dar uma ajudinha (sei de um blogue há muito parado cujo autor vai lá escrevendo coisas bem jeitosas). O Twitter, tão caro às celebridades estrangeiras, pela sua própria essência nunca constituiu ameaça, e só há poucos meses e por razões profissionais reactivei a minha conta. 

Tenho para mim que o que deu cabo de muita da blogosfera de que eu mais gostava foi a publicidade nos blogues. Aprovo que cada um ganhe a vida como puder e como melhor lhe aprouver. Não prejudica ninguém e é a tal coisa, ninguém lá vai porque lhe apontam uma pistola à cabeça. Que as autoras dos blogues com maior visibilidade muitas vezes tentem disfarçar que estão a receber bom dinheirinho para falar deste ou daquele produto já é outra conversa, mas nem vou ocupar-me disso. Os tais posts publicitários têm em mim perversamente o efeito contrário ao pretendido, e lembro-me de não ter comprado durante meses qualquer produto da marca Mimosa na sequência da saturação de bloggers que, só para lhe publicitar um leite sem lactose, desataram em simultâneo a contar patranhas de intolerância, própria ou de familiares mais ou menos chegados, à pobre dita. 

Por último, e a coisa que provavelmente mais desfigurou a blogosfera em que me movimentava, temos o aparecimento dos clubinhos de blogues, alguns declaradamente dedicados àquilo a que só posso chamar bullying, e assisti a coisas verdadeiramente feias e que, nalguns casos, chegaram a atingir seriamente os alvejados. Em torno de dois ou três blogues reúne-se um grupinho de comentadores aí com uns 98% de anónimos, e vai de achincalhar sem dó nem piedade e, devo dizer, também sem qualquer ponta de graça, meia dúzia de blogues. Depois os blogues cabecilhas batem-se muitas palminhas entre si, citam-se uns aos outros, copiam-se uns aos outros e ficam todos muito contentinhos com a devastação que lhes deu tanta animação às caixas de comentários. Quase todos aparentemente anónimos, está bom de ver. E siga para bingo. Isto é, para a próxima vítima.

O título deste post? Pues que comecei a estudar espanhol, e tenho consumido doses avantajadas de séries de televisão (lá iremos) e de filmes de Almodóvar. 



quarta-feira, 11 de março de 2015

Serviço público: MyAirBridge

O meu amigo João Pedro deu-me há coisa de um mês um duplo presente: enviou-me a mais soberba adaptação alguma vez feita de Jane Eyre, um dos (muitos) livros da minha vida (BBC, 1973), e, de caminho, sem saber, apresentou-me o fantástico MyAirBridge, que eu desconhecia. 

Estava habituada a usar o WeTransfer, que funciona lindamente para ficheiros de até dois gigas, mas para coisas maiores tinha de recorrer à Dropbox. Problema resolvido, o MyAirBridge permite enviar gratuitamente ficheiros até 20 gigas com a maior das limpezas e num único envio, é só agrupar os ficheiros numa mesma pasta. Mais: armazena os endereços dos destinatários, o que me dá igualmente um jeitão, já que há quatro ou cinco pessoas a quem envio recorrentemente coisas pesadíssimas. Para terem uma ideia, consegui despachar num único envio o fabuloso Leonard Bernstein's Young People's Concerts, que são nove DVD e cujo preço não é nada meigo. Tenho-lhe dado um uso que nem queiram saber!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Fifty Shades of Grey


Fico-me pelo comentário de um amigo da Madalena lido ontem no Facebook:

«Diz que o filme tem uma tipa algemada a ser sodomizada enquanto bate com a cabeça numa mesinha de cabeceira feita em Rio Tinto.»

Parece-me que não haverá muito mais a dizer.